22 agosto 2015

Ai, Caeiro... Caeiro...

Motivo nº: n+23

PESSOA: UM DOS MEUS ÍDOLOS. E TAMBÉM UM POEMA SEU.


Agora um poema do Pessoa. Porque Pessoa e eu macumunamos:
A Espantosa Realidade das Cousas
A espantosa realidade das cousas 
É a minha descoberta de todos os dias. 

Cada cousa é o que é, 

E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra, 

E quanto isso me basta. 

Basta existir para se ser completo. 

Tenho escrito bastantes poemas. 
Hei de escrever muitos mais. Naturalmente. 

Cada poema meu diz isto, 
E todos os meus poemas são diferentes, 
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto. 

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra. 
Não me ponho a pensar se ela sente. 
Não me perco a chamar-lhe minha irmã. 
Mas gosto dela por ela ser uma pedra, 
Gosto dela porque ela não sente nada. 
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo. 

Outras vezes oiço passar o vento, 
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido. 

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto; 
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo, 
Nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar; 
Porque o penso sem pensamentos 
Porque o digo como as minhas palavras o dizem. 

Uma vez chamaram-me poeta materialista, 
E eu admirei-me, porque não julgava 
Que se me pudesse chamar qualquer cousa. 
Eu nem sequer sou poeta: vejo. 
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho: 
O valor está ali, nos meus versos. 
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade. 

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos" 


Heterónimo de Fernando Pessoa 
Digitei no Google dia desses "escrevo como quem" e encontrei este, de modo totalmente aleatório. E perceba como é rico e como sua essência diz respeito a exatamente o que foi dito. E o que se diz e o que se tem a dizer.
Fernando Pessoa, conheço como poeta. Sei que escrevia suas poesias e assinava por heterônimos. Admiro muito Fernando Pessoa, mas em especial as características poéticas de um de seus heterônimos: Alberto Caeiro. Segundo pessoa, esse heterônimo surgiu depois de muito tentar elaborá-lo sem sucesso. Quando finalmente desistiu "foi em 8 de Março de 1914 — acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive.”Quando Fernando Pessoa escreve em nome de Caeiro, diz que o faz “por pura e inesperada inspiração, sem saber ou sequer calcular que iria escrever.”*
Com sede de poesia, encontrei no Domínio Público três páginas puras de versos de Caeiro. E cada um deles que leio vejo exatamente aquilo que tenho que ver. São versos que mexem comigo. Me emocionam. E não seguem rimas ou o que quer que se exige dos poemas por aí. São poemas mais puros em que podem ser. E vejo muito auto-conhecimento neles. O que leio nada mais é do que no que acredito: somos. Existimos. É preciso ver as coisas como são: pedras como pedras, árvores como árvores, flores como flores e não como pensamos que são. É preciso sentí-las mas não como o tratar dos poetas místicos que dão vida a coisas quando essa vida é na verdade reflexo deles mesmos. 
Tudo o que tenho a dizer é que... ai, Caeiro... Caeiro... falais o que consigo ouvir, vejo em teus versos o que há para ver. E só assim sou. :)

*http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt/index.php?id=4289

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